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A.I.C., Uma Indústria de Arte

 

Quando nosso primeiro aparelho de TV chegou em casa, em 1965, pensei logo nos desenhos que poderia assistir. O aparelho era um ABC - A Voz de Ouro, instalado dentro de um móvel de madeira muito bem acabado, com uma tela enorme de não sei quantas polegadas, cheio de válvulas e fios.

Ao lado foto da Fachada dos estúdios AIC, em

São Paulo, durante os anos 60/70

 

Tínhamos que esperar um pouco as válvulas esquentarem para a imagem aparecer. A tecnologia avançava naquela época, mas ainda era precária, e o nosso velho ABC muitas vezes nos deixava na mão, principalmente entre 18 e 21 horas, quando havia maior consumo de energia elétrica no país. Várias listas horizontais e verticais surgiam na tela, devido a diminuição de tensão da energia elétrica.

 

Mesmo pequeno, com quatro anos, percebi que os filmes e desenhos tinham nomes numa língua que eu não sabia ler, mas falados numa que eu entendia. Depois, começaram a dizer "Versão Brasileira…" no início de cada filme. Pensei: "Puxa! Será que eles inventam uma história na nossa língua que dá certo com a cena?". Só mais tarde fui entender que aquilo se chamava dublagem, um processo em que alguém falava por cima da língua original para nós compreendermos na nossa.

 

Ainda pequeno, comecei a distinguir vozes, reconhecer a beleza delas e perceber que cada vez que diziam "Versão Brasileira: A.I.C. - São Paulo", era sinal de que haveriam vozes bonitas. Não que os outros estúdios não tivessem boas vozes, mas A.I.C. era minha preferida. Também não sabia o que significava essa tal de "A.I.C. - São Paulo", mas aprendi que com ela apareciam minhas vozes preferidas, como a do Pepe Legal e Babalu, Fred Flintstone, Bibo Pai e Bóbi Filho, Zé Colméia, Space Ghost, Dom Pixote, Lippy & Hardy e, mais tarde, do meu querido vilão Dr. Smith da série Perdidos no Espaço. Fiquei muito contente quando percebi que o Mendigo da "Praça da Alegria" era o mesmo do "Oh, dor!".

 

Foi aí que comecei a pensar: quem seriam os outros então? Para minha felicidade, no programa "Show dos Artistas" da TV Tupi, convidaram o humorista Roberto Barreiros para cantar e contar piadas. E ele, além de tudo, fez as vozes dos "meus amigos" Babalu, Jambo, Ruivão e o narrador das estórias falarem com a sua boca. Era mais um que eu conhecia! Infelizmente, cresci e poucos dos meus heróis realmente soube quem eram.

 

Ocasionalmente, num programa ou outro de tevê, vi ali o Xandó Batista, o Luiz Pini, o Marcelo Gastaldi, o Carlos Campanile, o Orlando Vigiani, o Eleu Salvador, os irmãos Cazarré, o João Ângelo, o Dênis Carvalho, o Flávio Galvão, o Lima Duarte, a Laura Cardoso, mas tantos outros não sei dos seus rostos ou da vida que levaram. Sei de histórias tristes sobre anonimato, abandono, esquecimento, atropelamento e até mesmo pobreza.

 

Quando deixei de ouvir "Versão Brasileira A.I.C. - São Paulo" no começo dos filmes, meu encanto pela dublagem acabou. Só depois de homem já barbado, soube que a empresa havia falido.

 

Infelizmente, de alguns dos meus heróis, só terei mesmo a lembrança da voz. E que vozes maravilhosas!! Talvez esquecidos por aqueles que fazem dinheiro, esses heróis, como muitos outros heróis brasileiros, vão sucumbindo no esquecimento. Mas da nossa memória, jamais serão apagados. Pelo contrário, serão remasterizados, digitalizados, remixados e restaurados sempre em nossa homenagem a essa galeria de monstros da arte da dublagem.

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